Crítica | 79º Festival de Cannes | Sheep in the Box

Sheep in the Box (Japão, 2026)

Título Original: Hako no Naka no Hitsuji (箱の中の羊)
Direção: Hirokazu Kore-eda
Roteiro: Hirokazu Kore-eda
Elenco principal: Haruka Ayase, Daigo Yamamoto, Rimu Kuwaki, Nana Seino, Kanichiro, Hinata Hiiragi
Duração: 126 minutos (2h 06min)

Pensar na carreira de Hirokazu Kore-eda é mergulhar em um oceano de histórias nas quais o diretor e roteirista não busca julgar seus personagens, mas sim refletir sobre todo o espectro de existência humana. Da criança ao idoso, de mulheres e homens, de europeus e asiáticos, existe uma quantidade imensa de histórias que exploram a dualidade que existe dentro de cada pessoa.

Com Sheep in the Box não poderia acontecer algo diferente, exceto que nesse caso, ao invés de termos a situação humana, temos na realidade uma emulação humana: uma inteligência artificial criada a partir de memórias de uma criança real, na tentativa de ajudar pais enlutados com a perda de uma criança a lidar melhor com o luto. É muito difícil não pensar na conexão deste longa-metragem com I.A. – Inteligência Artificial (2001), filme dirigido por Steven Spielberg devido ao foco narrativo de pais lidando com a perda de um filho e que decidem ir para um caminho robótico ao invés da simples terapia. No entanto, essas semelhanças são bem limitadas, com Kore-eda tendo um foco maior na interação do garoto-robô com a família enquanto Spielberg na realidade lida com a rejeição após ser trocado por um humano.

É interessante ver um diretor com um foco grande em um realismo social pensando em uma sociedade ligeiramente no futuro, ainda que se trate de um futuro próximo. Temos uma sensação estranha ao observar detalhes como as entregas automáticas via drone, a utilização de meios de locomoção principalmente elétricos e o uso normalizado de I.A.s robóticas convivendo com elementos tão mundanos como a compra de pequenas árvores para criar maquetes realistas. Percebe-se, por exemplo, que nessa versão imaginada por Kore-eda a tendência atual de valorização de artes manuais aparece bastante presente, assim como a utilização de materiais naturais para a produção de casas. Neste sentido, até a profissão dos pais, de arquiteta e carpinteiro, falam também sobre o que ele imagina que será valorizado no futuro. Ainda que se tenha ouvido em diversas rodas de conversa sobre essa ser sua tentativa de normalizar a I.A. através da arte, interpretando os acontecimentos do filme percebemos exatamente o oposto: esse garoto surge como uma ferramenta para os seus pais, e não como uma existência com finalidade própria. É até aí que está a principal discussão do longa, na possibilidade de um ser senciente compreender a sua funcionalidade como vida.

Infelizmente, há outras escolhas artísticas que distraem o espectador dessa discussão, como as situações excessivamente melodramáticas com atuações mais ríspidas e o seu ritmo bastante lento. Passamos mais tempo pensando em toda a situação familiar do que na empresa que produz os robôs, e quais seriam as suas questões éticas envolvidas – algo que poderia trazer uma luz às discussões atuais sobre IAs. Ainda assim, observar a cinematografia que brinca com elementos naturais versus os inorgânicos faz com que nos aproximemos do que acontece em tela, ainda mais em um momento no qual se discute sobre a tentativa de se afastar do excesso de telas da ultra-modernidade.

Talvez o filme seja uma surpresa negativa para quem espera a emoção dos seus filmes anteriores, mas é curioso poder ver como alguém tão dedicado aos sentimentos humanos pensa no nosso futuro.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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