Crítica | 79º Festival de Cannes | Garance

Garance (França, Bélgica, 2026)

Título Original: Garance (Título internacional: Another Day)
Direção: Jeanne Herry
Roteiro: Jeanne Herry
Elenco principal: Adèle Exarchopoulos, Sara Giraudeau, Anne Suarez, Rudgy Pajany, Victor Chakravarty
Duração: 120 minutos (2h)

Garance marca um reencontro de uma dupla que teve bastante sucesso em seu primeiro longa-metragem, da diretora Jeanne Herry e a atriz Adèle Exarchopoulos, que realizaram juntas Je Verrai Toujours Vos Visages (2023). Se o assunto sério da justiça restaurativa francesa esteve presente no primeiro filme, aqui a seriedade se renova, com a dependência do álcool sendo colocada em um primeiro plano.

Garance é uma atriz de relativo sucesso, trabalhando em uma companhia teatral bastante conhecida, com um relacionamento estável (mas talvez não muito feliz) e que inicialmente parece ter tudo sob controle, até que se observe mais de perto e se perceba que ela é uma pessoa adicta ao álcool. O próprio filme brinca um pouco com essa noção de que essa é uma dependência socialmente bastante aceita, tanto pela legalidade da droga quanto pela possibilidade de certa funcionalidade aparente em um primeiro momento.

Mas, como se pode imaginar, tudo isso começa a cair por terra. O fim do relacionamento por considerá-lo medíocre, a incapacidade de seguir acompanhando os compromissos de trabalho e ainda um grande despertar sexual em relação a se apaixonar por mulheres fazem com que se inicie uma espiral de desgraças que também são muito comuns na história de pessoas com dependências químicas. Entre o suporte incrível dado pela sua rede de apoio e a dificuldade em reconhecer seu problema, o filme se torna uma profunda introspecção sobre uma personagem quase invisível tanto na ficção quanto na vida real.

Ainda que o filme fuja muito à realidade brasileira, com uma protagonista que consegue viver por um longo período de tempo sem receber nenhum tipo de salário, ele coloca em primeiro plano uma realidade bastante comum, mas que raramente é colocada no cinema com algum nível de realismo, que é a da pessoa com algum vício que ainda assim consegue viver uma vida relativamente funcional. Tanto o roteiro que faz questão de olhar para essa personagem sem um olhar julgador, mas sim tentando compreender a sua situação atual e quais são os seus próximos passos possíveis, quanto uma performance entregue de Exarchopoulos fazem com que a obra tenha uma naturalidade e realismo que acabam comovendo o expectador.

Esse olhar não julgador pode funcionar perfeitamente para a atuação, colocando pontos e contrapontos em seu dia-a-dia e personagens secundários que servem como uma rede de apoio perfeita, quase inabalável, mas não necessariamente para a experiência do espectador. De certa forma, o filme parece um tanto protocolar em relação ao seu funcionamento, com etapas específicas a serem cumpridas e uma espécie de roteiro, se tornando então algo um pouco engessado, sem grandes surpresas a quem assiste. Ao mesmo tempo, há uma dificuldade em compreender todo esse processo como real, pois até a noção de tempo fragmentada nos desliga da duração dos processos. Ficamos interessados na personagem, mas não conseguimos nos desligar do fato de que esse filme é uma ficção. Até o seu final, que é surpreendente, nos deixa com essa última impressão ao sair da sessão.

Um elemento que merece bastante atenção é a trilha sonora da obra, que ajuda a dar um tom único para ela e que sobrevive na mente de quem assiste. Em uma obra como essa, uma trilha excessivamente dramática poderia levar rapidamente a um tom melodramático que não combina com o naturalismo proposto. Ao invés disso, Pascal Sangla propõe uma trilha que mistura um elemento teatral e dramático inspirado na profissão da personagem com algo mais moderno e eletrônico para contrabalancear, também inspirado em toda a vida noturna na qual sua dependência é mais facilmente invisibilizada.

Essa exploração de uma personagem muito realista, mas com alguns passos previsíveis na narrativa, traz mais uma boa parceria entre diretora e atriz. Ainda que não tenha a potência explosiva de sua primeira colaboração, ainda há um trabalho sólido que lida com uma temática relevante para a atualidade.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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