The Beloved (Espanha, França, 2026)
Título Original: El ser querido
Direção: Rodrigo Sorogoyen
Roteiro: Isabel Peña, Rodrigo Sorogoyen
Elenco principal: Javier Bardem, Victoria Luengo, Melina Matthews, Marina Foïs, Malena Villa, Mourad Ouani, Pepa Gracia, Raúl Prieto, Pablo Gómez Pando, Raúl Arévalo, Núria Prims, Laura Birn
Duração: 135 minutos (2h 15min)
O diretor Rodrigo Sorogoyen já está no radar dos cinéfilos desde seus filmes anteriores, que receberam bastante aclamação da crítica nacional e internacional. Ao criar um filme que fala sobre os processos criativos do cinema envolvendo um grande drama familiar, ele consegue novamente atrair os holofotes para as suas criações.

Em sua primeira cena, um longo plano-sequência, já temos uma boa noção do filme que se desdobrará. Vamos duas pessoas se cumprimentando, Esteban (Javier Bardem) e Emilia (Victoria Luengo), e seguindo para um dos almoços mais desconfortáveis da história do cinema. Sentimos uma grande tensão nos personagens através da atuação de ambos, mas é apenas com o desenrolar da conversa que conseguimos compreender o tamanho do problema. Esteban é um pai ausente que não vê a filha há mais de uma década, mas que aproveita a sua posição como um diretor de prestígio para escalar a filha para um papel em seu próximo filme, esperando com isso uma espécie de reparação. Entre silêncios estranhos e uma conversa que consegue ser ainda mais incômoda, se inicia o acordo que dará seguimento ao resto do filme. Interessantemente, ele cita que quer fazer um filme sobre pessoas que não conseguem se olhar nos olhos, enquanto apesar de se olharem nos olhos, esse jantar parece tão desconfortável quanto o que ele quer retratar.
Aí seguimos para a segunda etapa do filme, que é a real produção do filme. Aqui, os conflitos entre pai e filha se intensificam na medida em que todo o seu drama pregresso também afeta seus comportamentos, dado que eles são seres humanos, e as filmagens também se tornam cada vez mais tensas. Existem dois elementos muito importantes para citar nesse momento do filme. O primeiro é um grande acerto em demonstrar uma produção de filme de maneira mais caótica do que ela geralmente aparece no cinema, e que também parece muito mais próxima da realidade. De situações complicadas em um set afastado, brigas entre equipe, cansaço, suor e lágrimas, cria-se uma noção muito melhor sobre como acontece todo o orquestramento para que o público possa depois consumir uma obra audiovisual. O segundo elemento é o quanto as atuações são essenciais para conseguir sustentar essa obra, dado que o limite entre o que está acontecendo no momento e os ressentimentos de um passado que não vemos em tela precisam estar presentes na tensão entre eles, e através da linguagem corporal e das intenções deles.
Soma-se a isso uma preocupação formal em como contar essa história, tanto na relação entre a colonização espanhola do Saara com a relação autoritária entre pai e filha (e também diretor e equipe) quanto em elementos técnicos, como roupas de época que dificultam locomoção ou um aprisionamento dos personagens em ângulos de câmera que criam a sensação de claustrofobia mesmo quando eles estão à céu aberto. Misturam-se também diversas técnicas de captação de imagem, criando uma metalinguagem com a noção de se rodar um filme dentro de um filme.
Mesmo que as relações entre pais e filhas seja bem explorada no cinema, e sua sinopse até lembre Valor Sentimental (2025), o diretor consegue deixar a sua marca tanto no seu ótimo controle do tom da narrativa, que vai da comédia para a tragédia em alguns seguindo, quanto pela sua situação específica em relação ao cinema e história espanhóis. Sorogoyen mostra novamente seu talento, e deixa o público esperando pelos próximos filmes.
Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.




