Prima Facie (Reino Unido, 2026)
Título Original: Prima Facie
Direção: Susanna White
Roteiro: Suzie Miller
Elenco principal: Cynthia Erivo
Duração: 106 minutos (1h 46min)
Em uma coincidência típica das produções britânicas, Prima Facie foi produzida a partir de uma peça de teatro homônima, escrita por Suzie Miller, que também é roteirista do filme, e que ficou famosa em Londres ao ser interpretada por Jodie Comer, que está presente em outro filme do festival, o musical Stuffed. Mas a peça perde sua configuração inicial de um monólogo e ganha ares mais cinematográficos ao ser adaptada a este novo formato.

Aqui, Tessa Ensler é interpretada por Cynthia Erivo, algo que acrescenta ainda um significado racial a uma questão que nas outras versões se coloca como de gênero e classe. Ela é uma barrister, uma função legal que não existe no Brasil e que praticamente ajuda a compreender a sustentação oral de um caso litigioso – ou seja, se alguém que cometeu ou sofreu um crime é capaz de recordar e nomear as coisas que aconteceram naquela situação de maneira condizente com a realidade. Esta explicação que é aqui colocada em texto é simplesmente mostrada no filme em uma de suas cenas iniciais, com a personagem apenas fazendo o seu trabalho. Inclusive, em sua cena inicial ele já dá um tom bastante contemporâneo aos acontecimentos, com o contraste entre quadros de juízes brancos com a caminhada de Erivo pelo seu local de trabalho, ouvindo música em seu fone de ouvido e com um tênis de lantejoulas que indica o deslocamento em relação ao que é esperado. Em mais uma cena curta a vemos se transformar nessa advogada tradicional, de salto alto e com sons que remetem às tradicionais corridas de cavalos inglesas, e compreendemos que realmente foi pensado em como este monólogo seria transposto para uma linguagem audiovisual completa.
O filme tenta dar forma a todos os elementos que seriam impossíveis de serem captados fora dos palcos. Há, por exemplo, bastante interação com outros personagens, diversos deslocamentos do centro para as áreas mais afastadas de Londres, e até mesmo o uso de diversos figurinos e locações luxuosos causando um certo deleite visual em quem está assistindo. Tudo funciona de maneira a amaciar o espectador para a mensagem dura e o gosto amargo que o próprio texto da obra tem a apresentar. E, mesmo que existam momentos em que o monólogo dos palcos acaba transbordando para a tela e quebra um pouco as expectativas do conteúdo cinematográfico, ainda é perceptível a justificativa dentro da lógica interna que a obra apresenta. Sabemos que estamos seguindo essa personagem principal, e mesmo que haja uma cena de tribunal bastante longa na qual quase perdemos o foco por sermos colocados dentro do cérebro da personagem, ouvindo seus pensamentos em voz alta, é difícil, como mulher, não compreender exatamente as intenções da roteirista, diretora e atriz em conjunto.
O filme não tem grandes cenas memoráveis que ficarão eternizadas na memória de quem assiste, mas depende de um texto que é tão tocante que fala por si só. Erivo consegue se desvencilhar da imagem de Elphaba devido ao seu intenso trabalho em Wicked, e nos prova mais uma vez que é uma excelente atriz, capaz de comover mesmo quando o texto se torna mais óbvio. E, por mais que os dramas de tribunal não estejam em seu auge, a obra consegue utilizar bem essa estrutura para falar sobre a violência contra mulheres.
Prima Facie (UK, 2026)
Original Title: Prima Facie
Director: Susanna White
Writer: Suzie Miller
Cast: Cynthia Erivo
Runtime: 106 minutes (1h 46min)
In a coincidence typical of British productions, Prima Facie is based on the play of the same name by Suzie Miller — who also wrote the screenplay. The play gained fame in London through Jodie Comer’s performance; Comer also appears in another festival film, the musical Stuffed. However, the piece sheds its original monologue format and takes on a more cinematic quality in this adaptation.
Here, Tessa Ensler is played by Cynthia Erivo, a casting choice that adds a racial dimension to an issue that, in other versions, was framed primarily around gender and class. She is a barrister, a legal role that does not exist in Brazil but is key to understanding the oral advocacy involved in litigation, specifically, the ability of someone who committed or suffered a crime to recall and articulate the events of the situation in a way that aligns with reality. While this explanation is spelled out here in text, the film simply demonstrates it in an early scene where the character is shown simply doing her job.
The opening scene immediately establishes a contemporary tone, contrasting portraits of white judges with Erivo walking through her workplace — listening to music on headphones and wearing sequined sneakers that signal her departure from the environment’s expected norm. In another brief scene, we see her transform into a traditional lawyer, wearing high heels amidst sounds evoking traditional English horse racing, making it clear that great thought went into translating this monologue into a fully realized audiovisual experience. The film attempts to give shape to elements that would be impossible to capture on stage. There is, for instance, significant interaction with other characters, movement from the city center to London’s outlying areas, and even the use of various costumes and lavish locations that offer a visual treat for the audience.
Everything works to ease the viewer into the harsh message and bitter aftertaste inherent in the source material. And while there are moments where the theatrical monologue spills onto the screen, briefly subverting cinematic expectations, the film’s internal logic provides a clear justification for these choices. We know we are following this protagonist; even during a lengthy courtroom scene where we almost lose focus, immersed as we are in her mind, hearing her thoughts aloud, it is difficult, as a woman, not to fully grasp the combined intentions of the screenwriter, director, and actress.
The film lacks grand, iconic scenes destined to be etched in the viewer’s memory forever; instead, it relies on a script so moving that it speaks for itself. Erivo manages to break free from the shadow of her intense work as Elphaba in Wicked (2024), proving once again that she is an exceptional actress capable of stirring emotions even when the writing leans toward the obvious. And although courtroom dramas may not be at their peak popularity, the film effectively uses this structure to address the issue of violence against women.




