Flesh and Fuel (França/Polônia, 2026)
Título Original: Du fioul dans les artères
Direção: Pierre Le Gall
Roteiro: Pierre Le Gall
Elenco principal: Alexis Manenti, Julian Świeżewski
Duração: 91 minutos
Existem milhares de maneiras de contar uma história. No entanto, desde 1949 que o mundo lida com as consequências da estruturação de como contar uma história através do estudo que Joseph Campbell fez com a Jornada do Heroi, que cataloga em 17 etapas o que cada um dos herois precisa superar em sua história. Mais tarde, com o advento do cinema, o analista de roteiros Christian Vogler faz a transposição cinematográfica do conceito, com os 12 passos que formam a Jornada do Escritor. Se o conceito já é bastante difundido, também é incontável a quantidade de obras que seguem essa estrutura à risca, buscando nisso contar uma história clássica e que tenha um amplo apelo ao público.

Flesh and Fuel é uma obra que se adequa bastante a isso. Temos um caminhoneiro, Étienne (Alexis Manenti), um homem gay bem resolvido quanto à sua atração sexual e que vive uma vida nas estradas, com pouco tempo para desenvolver uma vida afetiva. No entanto, quando ele conhece Bartosz (Julian Świeżewski) em um cruising em uma floresta em uma parada de caminhão, algo parece mudar no seu mundo. Desde um primeiro enfrentamento com a polícia até encontros desengonçados em partes opostas de uma ponte, ele claramente se encontra apaixonado.
Quase como em um roteiro saído dos manuais de boas práticas, o filme tem um desenrolar estranhamente previsível, algo entre um drama romântico dos anos 1990 e um filme de realismo social sobre as mudanças na Europa no contexto de logística nos últimos anos. Há o conflito interno, do personagem que ao mesmo tempo em que busca a conexão, também não abre mão de seus princípios, conflitos externos com o agora amante e até mesmo com personagens secundários, e o conflito com o externo, que são essas mudanças relacionadas aos grandes armazéns, aos jovens entrando no mercado de trabalho e até a uma precarização do serviço com a competitividade europeia de diversos países dentro da zona do euro. Ainda que a mistura entre todos os elementos traga uma história com certa originalidade, sua estrutura ainda parece um tanto engessada no que parece ser a maneira correta de contar uma história. Até mesmo questões técnicas, como a câmera na mão em momentos de tensão contra algo quase invisível nos momentos cotidianos, estão embebidas em uma falta de originalidade.
O filme se sobressai, no entanto, justamente por subverter essas estruturas ao utilizá-las para falar sobre um romance gay. Ele brinca com o imaginário dos espectadores ao ocultar alguns detalhes que fazem com que se pense nos estereótipos sobre personagens LGBT no cinema, como esperar que em algum momento aconteça alguma tragédia ou que um deles esteja escondendo uma mentira. Assim, ao se manter fiel ao que se propõe e contar uma história relativamente mundana, ele consegue se diferenciar das muitas obras com temáticas ou estruturas semelhantes. É também feliz ver uma relação entre dois homens sendo tratada de maneira afetiva e cheia de desejo, sem cair nos excessos de nenhum dos dois extremos.
Assim, por mais que alguns elementos parecem forçados para essa estrutura e que exista uma grande previsibilidade do roteiro, ainda é revigorante ver a história de dois caminhoneiros que se apaixonam e lidam com os desafios da vida e da sua relação.
In English, translated by Renata Torres:
Flesh and Fuel (France/Poland, 2026)
Original Title: Du fioul dans les artères
Director: Pierre Le Gall
Screenplay: Pierre Le Gall
Main Cast: Alexis Manenti, Julian Świeżewski
Running Time: 91 minutes
There are thousands of ways to tell a story. However, since 1949 the world has been grappling with the consequences of structuring storytelling through Joseph Campbell’s study of the Hero’s Journey, which catalogs in 17 stages what each hero must overcome in their story. Later, with the advent of cinema, screenwriter Christian Vogler made the cinematic transposition of the concept, with the 12 steps that form the Writer’s Journey. While the concept is already quite widespread, the number of works that follow this structure to the letter, seeking to tell a classic story with broad public appeal, is also countless.
Flesh and Fuel is a film that fits this description quite well. We have a truck driver, Étienne (Alexis Manenti), a gay man who is comfortable with his sexuality and lives a life on the road, with little time to develop an emotional life. However, when he meets Bartosz (Julian Świeżewski) while cruising in a forest at a truck stop, something seems to change in his world. From an initial encounter with the police to awkward meetings on opposite sides of a bridge, he clearly finds himself in love.
Almost like a script straight out of a best-practice manual, the film unfolds in a strangely predictable way, somewhere between a 1990s romantic drama and a social realism film about the changes in Europe in the context of logistics in recent years. There’s the internal conflict of the character who, while seeking connection, also refuses to abandon his principles; external conflicts with his now-lover and even with secondary characters; and conflict with the external world, which includes changes related to large department stores, young people entering the job market, and even the precariousness of work due to European competitiveness among various countries within the Eurozone.
Although the mix of all these elements creates a story with a certain originality, its structure still seems somewhat rigid in what appears to be the correct way to tell a story. Even technical aspects, such as the handheld camera in moments of tension versus something almost invisible in everyday moments, are imbued with a lack of originality. The film excels, however, precisely because it subverts these structures by using them to talk about a gay romance. It plays with the viewers’ imagination by concealing certain details that make one think about stereotypes about LGBTQ+ characters in cinema, such as expecting some tragedy to happen at some point or that one of them is hiding a lie.
Thus, by remaining true to its premise and telling a relatively mundane story, it manages to differentiate itself from many works with similar themes or structures. It’s also delightful to see a relationship between two men treated with affection and passion, without falling into the excesses of either extreme.
Therefore, even though some elements seem forced within this structure and there is a great deal of predictability in the script, it’s still refreshing to see the story of two truck drivers who fall in love and deal with the challenges of life and their relationship.
Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.




