Crítica | 79º Festival de Cannes | The Station

The Station (Iêmen, Jordânia, França, Alemanha, Holanda, Noruega, Catar, 2026)

Título Original: Al Mahatta
Direção: Sara Ishaq
Roteiro: Sara Ishaq e Nadia Eliewat
Elenco principal: Manal Al-Mulaiki, Abeer Mohammed, Rashad Khaled, Saleh Al-marshahi, Fariha Hassan, Amal Esmail, Shorooq Mohammed, Randa Mohammed e Fatima Muthanna
Duração: 112 min

Para um cidadão brasileiro comum, é até inusual se deparar com uma história vinda do Iêmen. Ainda que seja uma região de muitos conflitos dentro de SWANA, para as notícias principais que nos chegam pelos grandes veículos de mídia sua situação é abafada pelos conflitos maiores como os do Irã e Arábia Saudita. Porém, com uma pesquisa simples é possível compreender que sua história é semelhante à de outros países, com uma grande movimentação política dentro da Primavera Árabe seguida por um período de conflitos entre um grupo que impõe um islamismo mais tradicional contra um menos radical.

Compreender o básico desse conflito ajuda na compreensão de The Station.O filme lida com a questão de uma maneira mais generalista, tal qual fez recentemente Salvation, filme que recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim este ano. Mas compreender que existe uma inspiração em um conflito real e conhecido de Sara Ishaq, diretora escocesa-iemenita, também faz com que se interprete um pouco melhor a produção do longa-metragem.

Grande parte do filme se passa dentro de uma locação, a casa da personagem principal, que também é um posto de gasolina e um espaço onde as mulheres podem se encontrar sem a presença de homens. Na prática, isso significa um espaço seguro no qual elas podem relaxar um pouco em relação às normas islâmicas e tirar seus lenços, apreciar uma boa refeição e fumar uma shisha. Este é um cenário ideal para compreender um outro lado em relação aos conflitos já extremamente representados no cinema, o das mulheres que permanecem naqueles espaços enquanto eles vão para as linhas de frente das lutas armadas. Isso é trazido através da ficcionalização, mas justamente pelo trabalho documental que a diretora tem em sua carreira, vem com uma naturalidade que borra um pouco limites entre os gêneros.

Dentro da estrutura fílmica, o maior conflito é que o irmão mais novo da protagonista já está com a idade mínima para o alistamento, de 12 anos, e ela deseja mantê-lo em segurança com ela. Isso tem um custo, e ela pede ajuda para sua irmã, que mora em um território controlado pelo grupo oposto ao dela, com esse deslocamento sendo também um elemento importante para contar a história. É interessante ver como a obra se firma com essas poucas locações (uma casa e uma van, principalmente) e consegue destrinchar todo um conflito muito maior a partir delas.

A obra também se solidifica a partir dos contrastes que ela traz, seja visualmente, com as cores alegres presentes dentro da casa contra a imensidão bege que se encontra fora, ou de maneira estrutural, da proteção que aquele espaço representa. Ele consegue criar essa noção do interno versus externo que exemplifica bem a situação dessas mulheres, utilizando a combinação entre forma e conteúdo para reforçar essa noção.

Assim, mesmo com recursos relativamente simples e uma ótima ideia, a cineasta consegue transmitir ao público exatamente a noção do reflexo do patriarcado tanto no conflito quanto na realidade feminina e familiar. Até a noção de sororidade aparece refletida na obra, quando a tensão criada vai se tornando mais intensa e parece que o filme se encaminhará para uma tragédia melodramática inevitável.

O filme consegue alcançar os objetivos que propõe e emociona o espectador na mesma medida em que traz uma cultura pouco representada nas telas através de um olhar ainda menos explorado.

In English, translated by Renata Torres:

The Station (Yemen, Jordan, France, Germany, Netherlands, Norway, Qatar, 2026)

Original Title: Al Mahattah
Director: Sara Ishaq
Screenplay: Sara Ishaq and Nadia Eliewat
Main Cast: Manal Al-Mulaiki, Abeer Mohammed, Rashad Khaled, Saleh Al-marshahi, Fariha Hassan, Amal Esmail, Shorooq Mohammed, Randa Mohammed and Fatima Muthanna
Running Time: 112 min

For an average Brazilian citizen, it’s unusual to encounter a story from Yemen. Even though it’s a region of many conflicts within SWANA, the main news that reaches us through major media outlets overshadows its situation by larger conflicts like those in Iran and Saudi Arabia. However, with a simple search, it’s possible to understand that its history is similar to that of other countries, with a major political upheaval within the Arab Spring followed by a period of conflict between a group that imposes a more traditional Islam against a less radical one.

Understanding the basics of this conflict helps in understanding The Station. The film deals with the issue in a more general way, much like Salvation (Kurtulus, 2026), which received the Silver Bear at the Berlin Film Festival this year. But understanding that there is inspiration from a real and well-known conflict by Sara Ishaq, a Scottish-Yemeni director, also allows for a better interpretation of the film’s production.

Much of the film takes place within a single location: the main character’s house, which is also a gas station and a space where women can meet without the presence of men. In practice, this means a safe space where they can relax a little regarding Islamic norms, remove their headscarves, enjoy a good meal, and smoke shisha. This is an ideal scenario for understanding another side to the conflicts already heavily represented in cinema: that of the women who remain in those spaces while their brothers go to the front lines of armed struggles. This is presented through fictionalization, but precisely because of the documentary work in the director’s career, it comes across with a naturalness that blurs the lines between genres.

Within the film’s structure, the biggest conflict is that the protagonist’s younger brother is already of the minimum age for enlistment, 12 years old, and she wants to keep him safe with her. This comes at a cost, and she asks for help from her sister, who lives in the territory controlled by the opposing group, with this displacement also being an important element in telling the story. It’s interesting to see how the work establishes itself with these few locations (a house and a van, mainly) and manages to unravel a much larger conflict from them.

The work is also solidified by the contrasts it presents, both visually, with the cheerful colors inside the house against the vast beige expanse outside, and structurally, through the protection that space represents. It manages to create this notion of internal versus external that exemplifies the situation of these women, using the combination of form and content to reinforce this notion.

Thus, even with relatively simple resources and a great idea, the filmmaker manages to convey to the audience precisely the reflection of patriarchy in both the conflict and the reality of women and family life. Even the notion of sisterhood is reflected in the work, as the tension becomes more intense and it seems that the film is heading towards an inevitable melodramatic tragedy.

The film achieves its objectives and moves the viewer while simultaneously portraying a culture that is rarely represented on screen through an even less explored lens.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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